09/08/2010

Alimentos Funcionais e Nutracêuticos

Vários fatores têm contribuído para o desenvolvimento de alimentos funcionais, sendo um deles o aumento da consciência dos consumidores que desejando melhorar sua qualidade de vida, optam por hábitos saudáveis.

Os alimentos ditos funcionais devem apresentar propriedades benéficas além das nutricionais básicas, sendo que se trata de alimentos comuns. São consumidos em dietas convencionais, mas demonstram capacidade de regularem funções corporais auxiliando na proteção contra doenças como hipertensão, diabetes, câncer, osteoporose e doenças cardíacas.

Alimentos funcionais são todos os alimentos ou bebidas que, consumidos na alimentação cotidiana, podem trazer benefícios fisiológicos específicos, graças a presença de ingredientes fisiologicamente saudáveis. Pertencem à Nutrição e não à Farmacologia e agem mais na redução de riscos de doenças do que na prevenção delas. Promovem benefícios à saúde como melhora da qualidade de vida, do desempenho físico, psicológico e comportamental.

O termo "nutracêutico" define um alimento ou parte de um alimento isolado que possua algum efeito médico e de saúde, incluindo a prevenção e/ou tratamento de uma doença. Ele fornece ao organismo desde o suprimento de minerais e vitaminas essenciais até a proteção contra várias doenças.

O nutracêutico pode ser consumido sob diferentes formas como: o nutriente isolado em cápsulas (uma vitamina ou um sal mineral), um suplemento dietético em cápsulas ou em pó (compostos poli-vitamínicos e poli-minerais ou misturas contendo aminoácidos), produtos herbais (extrato de uma determinada erva), alimentos ou produtos processados como sopas e bebidas.

Podem ser classificados como: fibras dietéticas, ácidos graxos poliinsaturados, proteínas, peptídeos, aminoácidos ou cetoácidos, minerais, vitaminas antioxidantes e outros antioxidantes (glutationa e selênio).

Há muita confusão e dificuldade de diferenciar alimento funcional de nutracêutico, pois eles acabam por vezes se misturando. Alguns ingredientes ditos funcionais como as alicinas presentes no alho, os carotenóides e flavonóides presentes em diversas frutas e vegetais, os glucosinolatos presentes em vegetais crucíferos, os ácidos graxos poliinsaturados presentes em óleos vegetais e óleo de peixe, podem ser consumidos juntamente com os alimentos que os contêm (sendo estes considerados alimentos funcionais) ou individualmente como nutracêuticos.

Abaixo estão algumas outras substâncias que agem prevenindo doenças e melhorando o funcionamento do organismo. O princípio é aproveitar o alimento ingerido não só como uma fonte de calorias e sim como provedor de algum outro benefício.

Pró-bióticos e Pré-bióticos:
Os primeiros são microorganismos vivos que podem ser agregados como suplementos na dieta, afetam de forma benéfica a flora microbiana intestinal, prevenindo infecções entéricas, aliviam a constipação, estimulam o sistema imune e melhoram a absorção de vitaminas e minerais. Os pré-bióticos são oligossacarídeos não digeríveis, porém fermentáveis que servem de substrato (meio) para o crescimento de microbiota intestinal saudável. Os iogurtes e leites fermentados (yakult, activia, etc) são os alimentos mais comumente suplementados com pró-bióticos e a inulina e os frutooligossacarídeos são os pré-bióticos mais usados.

Alimentos sulfurados e nitrogenados:
São compostos orgânicos usados na proteção da carcinogênese e mutagênese sendo ativadores de enzimas na detoxificação do fígado. As propriedades anticarcinogênicas de vegetais crucíferos como repolho, brócolis, rabanete, palmito e alcaparras são atribuídas ao seu alto teor de glicosilatos. Os isotiacianatos e indóis são compostos antioxidantes presentes em crucíferas como o brócolis, couve-flor, couve-de-bruxelas, couve e repolho. Eles inibem mutações no DNA que levam ao câncer.

Vitaminas antioxidantes:
A oxidação dos sistemas biológicos ocorre devido a ação dos radicais livres, moléculas extremamente reativas geradas por fontes endógenas (ciclo celular) ou exógenas (fumo, poluição, drogas, radiações, etc). Antioxidantes presentes em muitos alimentos podem prevenir ou reduzir as lesões celulares causadas pelos radicais livres.

Dentre os principais antioxidantes estão a Vitamina C, a glutationa, o ácido úrico, a Vitamina E e os carotenóides. Estes últimos estão presentes em alimentos de cor amarela, laranja e vermelha (tomate, abóbora, pimentão, cenoura, laranja...), tendo como principais representantes os carotenos, precursores da Vitamina A e o licopeno. O betacaroteno é o mais abundante dos carotenóides em alimentos e é o que apresenta maior atividade de Vitamina A.

Tanto o betacaroteno como a luteína, zeoxantina e licopeno possuem ação protetora contra o câncer. O betacaroteno possui ação protetora contra doenças cardiovasculares uma vez que atua inibindo a oxidação do LDL (o colesterol ruim). A luteína e a zeoxantina são muito encontradas em folhas verde-escuras e exercem proteção contra degeneração macular e catarata.

A Vitamina E é a principal vitamina antioxidante transportada na circulação protegendo os vasos sanguíneos da ação dos lipídios séricos e sua ingestão em altas doses pode reduzir o risco de doença cardiovascular. Ela é um componente dos óleos vegetais, impede os danos dos radicais livres às células e previne doenças como câncer, artrite, catarata e o envelhecimento. A Vitamina C é geralmente consumida em altas doses pelos seres humanos, estudos mostram que reduz os danos causados pelas radiações e medicamentos.

Compostos Fenólicos:
Os flavonóides possuem várias propriedades farmacológicas e atuam como antioxidantes. Não são produzidos pelo organismo, mas adquiridos pela dieta. A dieta mediterrânea rica em frutas frescas e vegetais é associada à baixa incidência de doenças cardiovasculares e câncer devido a elevada quantidade de vitaminas, flavonóides e polifenóis. O chamado "paradoxo francês" mostra uma aparente compatibilidade entre uma dieta rica em gorduras e uma baixa incidência de doenças cardíacas e dislipidemias que é atribuída a presença de compostos fenólicos do vinho tinto com propriedades antioxidantes. Os flavonóides englobam uma classe importante de pigmentos naturais encontrados na natureza, unicamente em vegetais.

Uma subclasse dos flavonóides são as isoflavonas, provenientes da soja, sua ingesta tem sido relacionada com um efeito protetor contra diversas doenças crônicas (doenças cardíacas, câncer de próstata, diabetes, osteoporose, déficits cognitivos e efeitos da menopausa). Elas apresentam estrutura e atividade semelhante ao estrógeno humano e são conhecidas como fitoestrógenos, podendo proteger o organismo contra doenças cardíacas e possivelmente contra o câncer de mama. Pesquisas mostram que dietas ricas em soja ajudam a reduzir níveis de LDL (colesterol ruim) de 12 a 15%.

Ácidos graxos poliinsaturados:
Destacam-se as séries ômega-3 e 6 encontrados em peixes de água fria (salmão, atum, sardinha e bacalhau), óleos vegetais, sementes de linhaça, nozes e alguns tipos de vegetais. A partir deles são sintetizadas substâncias antiinflamatórias, anticoagulantes, vasodilatadoras e antiagregantes. O consumo adicional de ácidos graxos ômega-3 na dieta vem sendo recomendado. A ingestão de peixes regularmente na dieta tem efeito favorável sobre os níveis de triglicerídeos, pressão arterial, mecanismo de coagulação e ritmo cardíaco, na prevenção de câncer (mama, próstata e cólon), prevenção de artrite, depressão e Alzheimer e redução da arteriosclerose. A proporção indicada para ingesta seria de 5:1 (de ômega-6 para ômega-3).

Fibras (Oligossacarídeos):
A fibra dietética é uma substância indisponível como fonte de energia pois não é digerida pelas enzimas do intestino. Possuem alto peso molecular e são encontradas em vegetais como grãos (arroz, soja, trigo, aveia, feijão, ervilha), verduras (alface, brócolis, couve, couve-flor, repolho), raízes (cenoura, rabanete) e outras hortaliças (chuchu, vagem, pepino). São classificadas como fibras solúveis (pectinas e hemiceluloses) e insolúveis (lignina, celulose e algumas hemiceluloses).

As solúveis formam géis em contato com a água e diminuem a absorção de ácidos biliares tendo efeitos na redução do colesterol, triglicerídeos e níveis de insulina. São metabolizadas por bactérias levando a formação de gases. As insolúveis permanecem intactas por todo o trato digestivo onde aumentam o bolo fecal e estimulam a motilidade intestinal, aumentam a excreção de ácidos biliares, têm propriedades antioxidantes, reduzem níveis de colesterol e previnem câncer.

Preste atenção no que você ingere: não basta "comer", é preciso "nutrir-se"!


Dra. Priscila Rosa Pereira.

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