8 de fev de 2011

Será o fim da cicatriz?

É inevitável sentir um frio na barriga ao encarar uma sala de cirurgia. A preocupação com o sucesso do procedimento, o medo do bisturi e a aflição da anestesia são recorrentes, mas não estão sozinhos na lista de apreensões que vêm à cabeça. Muitas vezes, o pós-operatório pode deixar sinais que, do ponto de vista estético, incomodam muito. Por isso, buscam-se tratamentos que garantam uma pele sem essas marcas. Ao que tudo indica, a grande promessa nessa seara é o laser infravermelho de baixa intensidade, objeto de estudo do fisioterapeuta Rodrigo Carvalho em seu mestrado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “Esse aparelho trabalha com uma energia concentrada mais baixa, que não provoca queimaduras nem lesões”, conta Carvalho. Há uma melhora significativa na aparência e na qualidade da cicatriz, que se torna mais suave e com cor e textura bem próximas às da pele normal. “Trata-se de ótima alternativa para cirurgias de mama, cesarianas e cicatrizes atróficas em geral”, observa. Por cicatrizes atróficas, entenda: aquelas em que há uma depressão e a pele se torna mais fina que o normal, como as que costumam dar as caras em problemas como a acne.
Além da versão infravermelha, outros tipos de laser, chamados de ablativos, despontam entre as opções antimarcas. Como o próprio nome já diz, eles fazem uma pequena raspagem na derme e na epiderme, as camadas mais superficiais da pele. Sua atuação é certeira: despejam uma grande quantidade de energia em pontos determinados. Os raios são convertidos em calor, o que gera uma leve queimadura. “Por meio dessa pequena lesão, o laser remove a pele morta situada em cima da cicatriz e promove a formação de uma nova camada com células jovens”, descreve o cirurgião plástico Alan Landecker, de São Paulo. Essa espécie de troca acontece graças ao estímulo da produção de fibroblastos, células responsáveis pela formação de colágeno, proteína essencial para a formação e renovação do tecido.

“O laser ablativo é um bom recurso contra cicatrizes atróficas”, indica Alan Landecker. Mas é preciso cautela ao optar por esse tratamento. “Ele pode causar efeitos colaterais, como o aparecimento de manchas escuras, além de ser agressivo à pele. Como saída, os especialistas vêm recorrendo a outro tipo de laser — o fracionado não ablativo. Atualmente, ele é a grande vedete nas clínicas. Capaz de promover uma recuperação mais rápida, esse laser segue o mesmo princípio do ablativo. A diferença é que, aqui, essa energia é fracionada, ou seja, menos concentrada. É como se, em vez de um choque de 120 volts, recebêssemos três pequenos choques de 40. O dano, no final, é menos intenso. É a técnica ideal quando o objetivo é dar uniformidade à pele.

Caso a intenção seja suavizar manchas e vasos, uma boa — e econômica — alternativa é a luz pulsada. Ela trabalha com uma luz não contínua, invisível ao olho humano, e atua positivamente sobre o processo de coloração da cicatriz. A técnica também pode ser usada em cicatrizes hipertróficas ou queloides.
Antes mesmo de apelar para qualquer um desses tratamentos, é preciso fazer de tudo, claro, para que o resultado da cicatriz fique discreto. A primeira atitude é garantir a hidratação da pele. Durante um mês após o corte, a pessoa deve passar hidratantes de três a quatro vezes por dia no local, massageando sempre”, orienta Alan Landecker. Colocar uma placa de silicone em cima do corte durante um ou dois meses também ajuda a estimular o amadurecimento da cicatriz. Outra medida é evitar movimentos bruscos para que a área não fique tensionada — é que a tensão provoca o alargamento do tecido fibroso. Em alguns casos, o paciente é orientado até mesmo a fazer uma pausa nas atividades físicas. O tempo de repouso varia, mas, geralmente, é em torno de um mês. Áreas como costas, pernas, ombros, joelho, cotovelo, tronco e a região entre as mamas exigem maior atenção, pois o risco de tensionar a pele nessas regiões é bem maior.

Também é fundamental evitar o sol por pelo menos dois meses. As marcas roxas que se formam logo após a cirurgia são sinal de deposição de pigmento sanguíneo entre as células da pele. Mas a tendência é que elas clareiem. No entanto, se houver um contato precoce com os raios solares, esses pigmentos sanguíneos irão estimular os melanócitos — células que produzem a melanina, que colore a pele —, resultando no escurecimento definitivo da marca do corte. Por fim, lembre-se de que o cigarro é outro inimigo da cicatrização, uma vez que a nicotina compromete a circulação do sangue. E isso retarda a reparação da pele. Esses cuidados, combinados a uma boa técnica cirúrgica e a um cirurgião experiente, compõem a fórmula certa para evitar uma marca no futuro.

Apesar de ser impossível eliminarmos as cicatrizes por completo, os métodos de que dispomos hoje, tanto de prevenção quanto de tratamento, são capazes de torná-las praticamente imperceptíveis.

Queloide é... uma cicatriz mais larga e elevada em relação à pele normal e que ultrapassa os limites da incisão — diferentemente do tipo hipertrófico, que, apesar de gorducho, respeita a margem do corte. Ambas têm as mesmas características, mas o queloide apresenta uma desproporção muito grande entre o tamanho do corte e a marca formada. Ele cresce bem além da cicatriz. Para impedir que apareça, dermatologistas indicam a quem apresenta tendência a queloides a betaterapia, tratamento que se vale de radiação para inibir a divisão acelerada das células e regular a quantidade de colágeno. A técnica, barata e acessível, deve ser aplicada a partir do primeiro ou segundo dia após a cirurgia. Um gel para uso domiciliar depois da cirurgia, à base de compostos usados na fórmula de autobronzeadores ajudaria a melhorar o estado da pele após operações, especialmente aquelas em que se retira uma área de tecido. É o que mostra um novo estudo realizado pela Universidade de Weill Cornell, nos Estados Unidos. O gel, composto de material biodegradável, atua no preenchimento do espaço deixado após a cirurgia, reduzindo a quantidade de gordura e líquidos prejudiciais que aumentam o risco de infecção. Apesar de ter sido testado apenas em ratos, os cientistas estão otimistas com o resultado em seres humanos.

Até a 16a semana de vida, o ser humano é capaz de regenerar sua pele, sem marcas, caso faça um corte. Depois dessa fase, perdemos a capacidade e passamos a formar cicatrizes. Isso apenas reforça que a medicina ainda evoluirá muito para quem sabe, um dia, sumir-mos com as cicatrizes!

Dra. Pâmela Rosa Pereira



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