15 de mar de 2011

Comer menos para viver mais

Uma dieta diária contendo entre 1.200 e 1.400 calorias (30% a menos do que a sugerida pela OMS) poderia aumentar nossa expectativa de vida média para 120 anos. Algumas pessoas chegariam então aos 150 anos! Mesmo que você só começasse a comer menos aos 30, ainda teria chance de prolongar seu tempo de vida na Terra em 7 anos.

É atrás dessa promessa que ao menos 2 mil pessoas no mundo praticam a Dieta de Baixa Caloria. Esse é o número de membros da Sociedade de Restrição Calórica. Apesar de a matriz ser nos EUA, há integrantes de todo planeta, inclusive 5 do Brasil. Os resultados dos pratos moderados têm sido positivos. Dados divulgados pela Sociedade atestam que os adeptos da dieta registraram queda significativa da pressão arterial, perda de quase 70% da gordura corporal e redução de 80% do nível de insulina no sangue. O que, no mínimo, reduz os riscos de doenças cardíacas e diabetes.

Pratos mais comportados também são a receita milenar dos habitantes do arquipélago japonês de Okinawa – é lá que estão as pessoas que mais vivem no mundo. A proporção de centenários nas ilhas é de 50 para cada 100 mil moradores, enquanto nos demais países, cai para 10 a cada 100 mil. A população de Okinawa é de 1,3 milhões. Não por acaso, um prato típico no arquipélago tem 17% menos calorias que o mesmo prato no restante do Japão.

A teoria mais aceita de por que comer pouco nos faria envelhecer mais devagar é evolutiva. Os efeitos benéficos das baixas calorias se devem a um mecanismo chamado “starvation response”, ou resposta à fome. Nos primórdios da humanidade, durante os períodos de grandes secas ou mudanças abruptas no clima, ficava difícil encontrar alimento.

Era natural, portanto, que sob a ameaça de inanição o organismo concentrasse seus esforços na proteção dos processos essenciais à sobrevivência. A energia normalmente gasta no crescimento e reprodução (mecanismos trabalhosos para o corpo) era deslocada para o reparo e manutenção constante das células. Isso fazia com que as pessoas envelhecessem mais devagar. Tudo não passava de um truque da natureza para garantir a continuidade da espécie: ao conservar o corpo, o intuito era preservar aqueles indivíduos para se reproduzirem assim que as coisas melhorassem.

Em 5 anos o laboratório Sirtris Pharmaceutical promete colocar no mercado uma pílula que imita os efeitos de se comer pouco, mesmo que você siga uma dieta normal. O princípio ativo já comercializado em medicamentos para diabéticos e como suplemento alimentar é o Resveratrol, substância encontrada na casca da uva roxa.


É sua presença que confere ao vinho tinto benefícios ao coração, e explica o que os cientistas chamam de “paradoxo francês”: a baixa mortalidade por doenças cardíacas na França, mesmo com uma dieta tão rica em gorduras. Graças ao hábito comedido que a população tem de beber vinho quase que diariamente.

Além dos benefícios ao coração, também há evidências de que o Resveratrol reduza o risco de Alzheimer, AVC, diversos tipos de câncer, perda de audição e osteoporose (todos problemas comuns no envelhecimento). Já provocar o aumento nos anos de vida é algo que ainda precisa ser provado em humanos. Mas o resultado em animais se mostrou estimulante.

Em 2006 pesquisadores da Escola de Medicina de Harvard realizaram estudos liderados por David Sinclair, não por acaso fundador da Sirtris Pharmaceutical, hoje pertencente à gigante inglesa GlaxoSmithKline. No experimento, cientistas superalimentaram roedores com uma dieta rica em gorduras e em paralelo forneceram a eles doses de Resveratrol. As cobaias ficaram obesas. Ainda assim, seu tempo de vida se estendeu a um patamar igual ao dos ratos que comiam com restrição. Para obter esses efeitos com vinho seriam necessárias 300 taças por dia, ou seja, não dá né?

Os medicamentos que imitam dietas metódicas serão uma aplicação mais concreta dos pioneiros estudos sobre antienvelhecimento. A primeira importante pesquisa científica que provou que restringir calorias poderia prolongar a vida foi divulgada em 1934. Um estudioso de nutrição da Universidade de Cornell, EUA, manteve ratos em um estado de quase fome por 4 anos e os assistiu viver 85% mais tempo que a média.

Mais recentemente, no início dos anos 2000, cientistas do Centro Nacional de Pesquisas em Primatas de Wisconsin revelaram bons resultados com macacos mantidos em uma dieta 30% menos calórica que seus colegas. Além de magros, estavam no auge da vida. Enquanto os que comiam normalmente se movimentavam lentamente e viam cair mais pêlos, entre outros sinais de velhice.

Em 2015, 2016 com o medicamento nas farmácias, a Sirtris deve se tornar a indústria referência em antienvelhecimento. Além do Resveratrol, seus laboratórios estudam outra substância capaz de imitar os efeitos de uma dieta de baixa caloria: a Rapamicina. Hoje usada para evitar rejeição em transplante de órgãos, o pricípio ativo fez com que ratos de meia-idade vivessem de 28 a 38% mais tempo, segundo um estudo divulgado pela Revista Nature, em meados de 2009. Mais uma pesquisa que mostraque há esperanças para prolongar a vida mesmo quando o corpo já está desgastado.

Vamos esperar e torcer para que os resultados dessas pesquisas realmente se comprovem em humanos, para que possamos usufruir dos benefícios de ser "forever young".


Dra. Priscila Rosa Pereira.

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