28 de jun de 2011

Cirurgia Bariátrica é a solução para todos os obesos?

A cirurgia bariátrica vem sendo apresentada, em algumas ocasiões, como a “solução ideal” para casos de obesidade grau III. As cirurgias podem ser divididas em dois tipos: o primeiro, onde há uma redução do tamanho do estômago, é chamada de cirurgia restritiva.

Existem três variações neste tipo de cirurgia, que são a banda vertical ajustável; a gastroplastia vertical e a gastroplastia vertical com by-pass em Y de Roux. Esta última, chamada Capella ou Fobi-Capella, é a mais utilizada. Além da restrição por diminuição do volume do estômago, ocorre uma pequena disabsorção dos alimentos, porque eles deixam de passar pela primeira parte do intestino delgado.

O segundo tipo de cirurgia bariátrica é a disabsortiva (ou derivação bilio-pancreática), chamada de cirurgia de Scopinaro. Neste caso, o paciente tem mais liberdade de comer maior quantidade de alimentos, já que não há grande diminuição do estômago que fica com 2/3 do seu tamanho. O que funciona aqui é o grande desvio dos alimentos, que vai mais rápido para o intestino grosso.

A cirurgia é recomendada para pacientes com índice de massa corporal (IMC) igual ou maior que 40, ou igual ou maior que 35 que tenham comorbidades associadas à obesidade (como diabetes, hipertensão, dislipidemias, etc). A cirurgia também só é indicada em pacientes com idade entre 18 e 65 anos e história de tratamentos clínicos para a obesidade por pelo menos 1 ano, sem sucesso.

Em todos os casos existem duas perguntas a serem respondidas: se o paciente está dentro dos critérios de indicação e se há algum critério de contra-indicação, tais como doenças graves (cirrose hepática, doenças renais, psiquiátricas, vícios (droga, alcoolismo), disfunções hormonais, etc). O paciente deverá, obrigatoriamente, ter pleno conhecimento das características, necessidades, riscos e limitações de cada cirurgia. Ele deverá participar de reuniões com a equipe multiprofissional e com pacientes já operados para poder ter certeza da sua decisão.

A equipe que acompanha esses pacientes que farão cirurgia bariátrica deve ser composta por cirurgiões, endocrinologista, nutricionista, psiquiatra ou psicólogo. Todos os pacientes, sem exceção, têm de passar por entrevista prévia com o psicólogo ou psiquiatra. Antes da cirurgia também deve ser feita avaliação clínico-laboratorial com exames de sangue, radiografia de tórax, ultra-sonografia e ou tomografia do abdômen, avaliação cardiológica, endoscopia digestiva e pesquisa de H. Pylori e avaliação de função respiratória que será quão mais aprofundada quanto mais obeso ou complicado seja o caso.

Caso o paciente tenha alguma doença que necessite tratamento e controle prévio, a cirurgia será adiada até que se obtenha a melhor condição clínica.



Após a cirurgia, o paciente já sai do hospital, em média, com menos dois quilos. Nos primeiros meses, a redução no peso chega ser de sete a oito quilos. Os pacientes com quadro de diabetes melhoram imediatamente, chegando a reduzir ou interromper o uso de insulina (diabetes tipo 2).

A complicação mais difícil de ser tratada é a pressão arterial. Ela demora mais a estabilizar e o paciente não interrompe o uso de medicamentos. Após a operação, os pacientes necessitarão de uma orientação nutricional para evoluírem de uma alimentação líquida para pastosa e, depois, para sólida.

Há a necessidade de suplementar a dieta com compostos ricos em proteínas nos primeiros dias ou meses. É feita cuidadosa orientação sobre os alimentos que podem causar "impactação" e orientação permanente para uma alimentação com os vários micronutrientes e macronutrientes. Isto varia de paciente para paciente. Em alguns casos, pode ser necessário suplementar mais cálcio, em outros ferro e vitamina B, etc.

O maior problema destas cirurgias a longo prazo é a desnutrição. Como fica com a capacidade do estômago reduzida e tem que comer menores quantidades de comida, o paciente precisa escolher muito bem o que comer. Pois se escolher só pães, pizzas, doces, frituras, enfim, alimentos com poucos ou nenhum nutriente, vai desenvolver déficits e carências nutricionais (falta de vitaminas e minerais). Se só comer alimentos ricos em carboidratos, terá déficit de proteínas, comprometendo várias reações metabólicas e impedindo o funcionamento normal do organismo.

Infelizmente casos de desnutrição são comuns. Em pacientes com desnutrição grave é necessária a internação. É obrigatório a suplementação com vitaminas e, frequentemente, temos que repor mais a B12. O ferro também é necessário com frequência.

A cirurgia bariátrica, seja do tipo restritiva ou disabsortiva, traz muitas limitações e mudanças na vida do paciente. Ele terá que se acostumar a comer bem menos do que antes, terá que escolher melhor o que comer, terá que repôr corretamente vitaminas e minerais necessários, terá que conviver por vezes, com sintomas como flatulência e diarréia, que não são nada agradáveis. Se não estiver muito bem orientado e ciente dessas mudanças, o paciente não vai seguir corretamente os cuidados necessários e vai acabar arrependendo-se de ter feito a cirurgia (o que acontece em muitos casos!).

Não pense que a cirurgia bariátrica é a solução de todos os problemas pra quem tem dificuldade de perder peso. Ela só acelera o processo. A perda de peso que ocorre após a cirurgia é rápida, o que é ótimo para os pacientes portadores de doenças e sob risco de eventos fatais como um infarto ou derrame. Um grande benefício da cirurgia é a reversão do diabetes (tipo 2, aquele adquirido), não se sabe ainda porque ou como isso ocorre, sabe-se que a razão não é somente a perda de peso, pois a reversão do diabetes ocorre mesmo antes do emagrecimento.

O problema é que as maiores dificuldades que a pessoa obesa enfrenta no dia-a-dia que a impedem de emagrecer, continuarão lá após a cirurgia. Essas dificuldades são muitas vezes os hábitos e estilo de vida, que geralmente permanecem os mesmos de antes, e a relação de dependência que a pessoa tem com a comida também não é modificada pela cirurgia.

Antes de submeter-se ao procedimento é necessário que o paciente seja muito bem orientado, avaliado e passe por uma mudança de estilo, hábitos de vida e pensamentos em relação à comida. Só assim ele conseguirá obter os benefícios que a cirurgia pode lhe trazer sem comprometer sua saúde e sem frustrar-se futuramente.


Dra. Priscila Rosa Pereira.

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