28 de jul de 2011

Emagrecer SEM tomar Remédio - parte 1

Com a proibição dos inibidores do apetite pela Anvisa, o que resta de opções para quem realmente tem problema de peso? O que fazer? Como fazer?


Veja esta matéria super interessante que saiu na Revista ÉPOCA da semana passada:


Aos 17 anos a modelo Suzy Rego perdeu a coroa de miss Brasil por 1 ponto. Foi em 1984. O segundo lugar foi suficiente para que ela se destacasse da multidão. No auge da forma (1,73 metros e 57 quilos), posou para a Playboy e deu os primeiros passos como atriz. Hoje, aos 44 anos, o desafio dela é o mesmo de 65 milhões de brasileiros: ela precisa emagrecer como 48% da população adulta que, segundo o Ministério da Saúde, está acima do peso. Suzy chegou a pesar 104 kg durante a gestação dos gêmeos Marco e Massimo, que completam 2 anos neste mês. Agora com 80 Kg, interpreta Duda Aguiar, uma atriz que vive em luta com a balança na novela Morde e Assopra da Globo. Voltou às passarelas como modelo GG graças ao manequim 46, mas acredita que essa é só uma fase. "Assim que a novela terminar quero voltar ao manequim 42" , diz. Basta querer?

Todos conhecem a receita básica do emagrecimento: alimentação saudável, atividade física e, em muitos casos, remédios. Mas essa estratégia pode estar com os dias contados. A Anvisa pretende proibir no Brasil a venda de inibidores de apetite. A discussão entre as entidades médicas e as autoridades sanitárias se estende há 6 meses. A decisão deverá ser anunciada nas próximas semanas.

No centro da polêmica está a substância sibutramina, cuja marca mais famosa é o Reductil. A droga atua no cérebro e aumenta a sensação de saciedade. É a principal escolha dos médicos que prescrevem remédios contra a obesidade. O tratamento é barato (R$ 20,00 por mês), mas incerto. Alguns pacientes não emagrecem nada. Outros podem perder mais de 20 kg.

A justificativa da Anvisa a favor da proibição é um estudo de 6 anos realizado pelo próprio fabricante (o laboratório Abbott) com 10 mil pacientes, a pedido da Agência Européia de Medicamentos (Emea). Foram incluídos apenas obesos acima de 55 anos, com diabetes e histórico de problemas cardiovasculares. No grupo que recebeu placebo (comprimidos sem efeito), o índice de infarto AVC (derrame) ou outros problemas cardiovasculares foi de 10%. No grupo que tomou sibutramina, o índice foi de 11,6%. Ou seja: o risco aumentou 16%. Nenhuma morte foi registrada.

Embora o estudo tenha sido realizado com um grupo de alto risco, as autoridades europeias estenderam as conclusões para a população geral e proibiram a venda do remédio em janeiro de 2010. A Abbott também foi pressionada pela agência americana FDA e decidiu retirar a droga dos EUA. O mesmo ocorreu no Brasil no final de 2010, mas a sibutramina contibuou disponível na forma de produtos genéricos ou similares.

Agora, além deles, a Anvisa pretende banir outros inibidores de apetite conhecidos pelo nome de "anorexígenos anfetamínicos". São substâncias como anfepramona, femproporex e mazindol. Elas podem causar dependência e já não são vendidas na Europa e nos EUA. Restaria nas farmácias apenas o Orlistat, conhecido pela marca Xenical. Ele não atua no cérebro e tem um efeito emagrecedor menor.

"Todo mundo quer saber o que, afinal, pode ser usado sem risco", diz Suzy. Como ela, milhões de pessoas que caminham para a obesidade ou se tornaram obesas se sentem desamparadas. Não sabem em quem acreditar nem qual é a melhor estratégia a seguir neste momento. Suzy diz que tomou sibutramina e fórmulas com anfetamínicos em vários momentos da carreira. "Sempre me dei bem com os remédios porque fazia tudo com acompanhamento médico e nutricional", afirma. "Eles são um recurso importante, mas não podem ser o único." O peso dela sempre oscilou. A atriz diz que perder os quilos extras ficou mais difícil nos últimos três anos. "Comecei a engordar por desleixo. Depois fiz tratamento com hormônios para engravidar e engordei mais 10 kg."

Para recuperar a boa forma ela quer voltar a fazer caminhadas e Pilates. Também pretende reequilibrar a alimentação com a ajuda de uma nutricionista. "Meu ponto fraco é a cerveja. Troco qualquer refeição por ela", diz.

Quando uma pessoa passa longos períodos sem comer adequadamente, o funcionamento do organismo muda para se adequar à falta de nutrientes. É por isso que quem faz dietas muitos restritivas, tende a engordar no longo prazo. "Como modelo, passava fome. Tomava litros de água, ia dormir sem comer, desmaiava nos lugares. Quando deixei a carreira, desencanei. Engordava, tomava remédio, emagrecia. Parava de tomar, engordava de novo." Essas oscilações de peso são parte de um fenômeno bem conhecido pela ciência.

Durante a 2a Guerra Mundial, o pesquisador Ancel Keys, da Universidade de Minnesota, realizou um experimento que se tornaria um clássico. Pretendia responder a uma questão simples: o que aconteceria se homens jovens e saudáveis perdessem muito peso em pouco tempo? Keys selecionou 36 rapazes de peso normal e saúde perfeita, na idade do serviço militar. Quando a dieta começou, eles passaram a comer metade das calorias que ingeriam normalmente. Além disso, caminhavam 35 km por semana. Em 6 meses haviam perdido 25% do peso.

Liberados da dieta, passaram os 3 meses seguintes comendo alucinadamente! Recuperaram todo o peso perdido e mais, chegando a ficar gordos. Durante a dieta, os rapazes ficaram obcecados pelo tema "comida". Não pensavam em outra coisa. Keys observou que eles perderam o interesse até mesmo por sexo. Um dos voluntários foi encontrado vasculhando uma lata de lixo. Os garotos, que antes da experiência eram emocionalmente saudáveis, começaram a sofrer de depressão e irritabilidade. O metabolismo deles passou a funcionar lentamente. A temperatura corporal despencou, a frequência cardíaca idem. Em suma: o corpo fazia de tudo para conservar as calorias disponíveis.

Quando a dieta chegou ao fim, os rapazes estavam encrencados. As refeições habituais deixaram de ser suficientes. Ingeriam alimentos muito mais calóricos e, ainda assim, se diziam insatisfeitos. Apenas uma hora depois de ter feito uma refeição de 5.000 calorias, começavam a beliscar. Alguns passaram a consumir 10.000 calorias por dia!

Nas décadas seguintes, os cientistas perceberam que é exatamente isso o que acontece com os obesos que perdem muito peso de repente. O emagrecimento só é duradouro se for gradativo e acompanhado de reeducação alimentar. Caso não possam mais tomar remédios para emagrecer, é fundamental que os gordinhos e os obesos redobrem a atenção sobre o que colocam no prato.

Nas primeiras semanas sem a sibutramina, a tendência é que a pessoa volte a ganhar peso rapidamente. O remédio estimula a saciedade. Sem esse freio, as porções que anteriormente pareciam adequadas se tornam insuficientes. Pode parecer um disparate, mas PARA EMAGRECER (E MANTER O PESO DESEJADO) É PRECISO COMER. Ao compor a dieta, é importante não cortar nenhum nutriente, nem mesmo a gordura. "Gordura só engorda, assim como qualquer outro nutriente, se for consumida em excesso", diz a nutricionista Fernanda Pisciolaro, coordenadora de nutrição clínica do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicad em São Paulo. "Não dá para tentar cortar toda a gordura. A comida fica horrorosa e a pessoa acaba comendo mais para compensar", diz.

Estudos recentes demonstraram que a gordura está relacionada à saciedade a longo prazo. Quanto menor a quantidade de gordura na refeição, mais propensa a pessoa fica aos ataques à geladeira. Para combater a obesidade, mais importante do que seguir uma dieta específica é MUDAR A RELAÇÃO COM A COMIDA. "Precisamos retomar aquilo que nossas avós reconheciam como comida normal: arroz, feijão, bife, salada", diz a nutricionista. O problema é que as comidas de fim de semana - como feijoada, virado à paulista e lasanha - viraram comida de todos os dias.

No longo prazo, os itens que consumimos diariamente, quase sempre sem refletir, moldam nosso estado de saúde. Todo alimento é fonte de calorias, mas alguns têm propriedades que ajudam a engordar ou emagrecer. Alimentos ricos em fibras (grãos integrais e frutas com casca) fazem a pessoa se sentir satisfeita por mais tempo. Com isso ela não ataca o primeiro pacote de bolacha que vê.

Num estudo realizado com 120 mil pessoas durante 20 anos, pesquisadores americanos chegaram a uma lista de alimentos que, se consumidos diariamente, fazem a pessoa ganhar ou perder mais peso. O mais engordativos, é claro, é a batata frita. Entre os alimentos que ajudam a emagrecer estão as frutas e o iogurte. O trabalho foi publicado no mês passado no The New England Journal Of Medicine, um dos periódiocs médicos mais respeitados do mundo. "Nossos resultados mostram que pequenas mudanças na dieta e no estilo de vida, somadas, podem fazer uma grande diferença. Para melhor ou para pior", afirma Dariush Mozaffarian, professor de epidemiologia da Universidade Harvard e um dos autores do estudo.

Continua...

(Revista Época, 18 de julho de 2011, n. 687)

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