29 de jul de 2011

Emagrecer SEM tomar Remédio - parte 2

Continuação

A mudança de atitude não é fácil, mas é cada vez mais urgente. "Muitos pacientes querem uma solução mágica. Tomam o remédio e não fazem todo o resto. Se os remédios saírem do mercado, vão ter de fazer dieta e exercícios para valer", diz o endocrinologista Paulo Rosenbaum, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. O professor de educação física Marcio Atalla, colunista de ÉPOCA, preparou algumas sugestões para os obesos sedentários e os mais ativos. "Os sedentários devem começar a praticar 30 minutos de atividades aeróbicas (como uma caminhada acelerada, ciclismo ou natação), 5x por semana", diz. Outra dica é praticar exercícios de força (como ginástica localizada, musculação ou Pilates) por 15 minutos 2x por semana.

Uma forma de aumentar o gasto calórico é investir nas atividades físicas do cotidiano, como trocar o elevador pelas escadas. "Subir 3 andares de escadas equivale a uma caminhada de 10 minutos."

A obesidade é uma doença complexa, determinada por razões sociais, econômicas, biológicas e culturais. À medida que a pessoa sai do sobrepeso e caminha para a obesidade, a saúde fica cada vez mais comprometida. A obesidade representa hoje um dos maiores desafios de saúde pública porque aumenta o risco de males como diabetes, infarto, AVC e câncer. Não é razoável imaginar que um obeso grave, com articulações comprometidas e joelhos sobrecarregados, possa sair correndo no parque mesmo se estiver bem motivado. "É um tremendo preconceito achar que o obeso não emagrece porque não tem vergonha na cara", diz o endocrinologista Walmir Coutinho, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).

"A retirada dos remédios do mercado vai prejudicar principalmente os mais pobres." Coutinho argumenta que os obesos sem recursos ficarão 12 anos sem acesso a alguma opção farmacológica: 2 anos para uma das 4 drogas em processo de avaliação pelas autoridades americanas chegar ao mercado e mais 10 anos para que a patente delas seja quebrada e os remédios fiquem baratos.

Remédios para emagrecer têm prós e contras. A intenção da Anvisa de proibir os inibidores de apeite é cruel porque vai deixar muitos obesos sem opção, sem o remédio muita gente não consegue emagrecer. Esse é um ponto da discussão que não pode ser desprezado. "No grupo de pacientes com grau de obesidade que varia de leve a mórbida, 70% não emagrecem sem remédio. Podem até emagrecer por ujm tempo, com exercícios ou dietas, mas vão recuperar o peso", diz o endocrinologista Alfredo Halpern, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Os especialistas temem que a proibição dos inibidores de apetite provoque no Brasil um fenômeno que começa a ser observado nos EUA e na Europa: aumento da quantidade de cirurgias de redução de estômago. E também a explosão de vendas de remédios que não são aprovados para tratar obesidade mas que têm a perda de peso como um dos efeitos colaterais. É o caso do antidepressivobupropiona e o anticonvulsivante topiramato. Outra tendência que começa a ser observada é a adoção de fitoterápicos sem comprovação científica de eficácia.

Por outro lado, muitos cardiologistas não enxergam razão científica para manter a sibutramina no mercado. "Para a grande maioria dos pacientes, não compensa tomar o remédio. A perda de peso é discreta e não há garantia que prevenirá infartos e derrames a longo prazo', diz Raul Dias Santos Filho, do Instituto do Coração (InCor). "Precisamos urgentemente de medicamentos eficazes e seguros para ajudar a tratar a epidemia de obesidade." As quatro drogas em processo de avaliação pela agência de controle americana, a FDA, devem demorar ao menos 2 anos para chegar ao mercado.

Durante esse intervalo, como ficariam as pessoas que não enxergam a possibilidade de emagrecer sem remédio? Existem milhões de pessoas que não vão aderir a um programa de atividade física e nem adotar uma dieta eficaz. Muitos dizem que não temem ficar sem opção caso a Anvisa proiba os inibidores do apetite. Dizem que no mercado negro sempre haverá alguma opção. Pois se o Brasil fosse sério e as leis valessem alguma coisa não seria fácil comprar remédios proibidos, mas não é o caso. A expansão do mercado de drogas para emagrecer é uma grande preocupação.

Outra, são os efeitos colaterais de remédios aprovados para outros fins. O anticonvulsivante topiramato que pode dar sonolência, formigamento e dificuldades de memória. "Vou receitar esse remédio aou pacientes obesos", diz Halpern. "Ou queremos chegar ao nível de estupidez que estamos vendo nos EUA? Eles não aprovam remédios para obesidade, mas permitem banda gástrica (um tipo de restrição do volume do estômago) para indivíduos com obesidade leve. A banda também pode ter complicações."

Médicos e pacientes terão de avaliar se vale a pena enfrentar efeitos colaterais para tentar conter o avanço da obesidade, uma doença grave que pode desencadear outras ainda piores. Uma coisa é certa; as pessoas que têm sobrepeso e ainda não chegaram ao nível de obesidade podem emagrecer com dieta e atividade física. Não se justifica o uso de remédios para emagrecer nesses casos. Há soluções mais simples, eficazes, seguras e duradouras. Que funcionam.


(Revista Época, 18 de julho de 2011, n. 687)

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