29 de fev de 2012

Pais e filhos na cozinha

Terapeutas recomendam que pais cozinhem com seus filhos.

De acordo com a psicanalista Kitty Haas, a atividade estreita relacionamentos, promove o diálogo e estimula a autossuficiência e segurança. Mas todos se beneficiam, não só as crianças.

Sempre há um ar de nostalgia quando um assunto envolve ao mesmo tempo, família e cozinha. Todo mundo tem uma lembrança feliz de uma avó, tia, pai ou mamãe na cozinha entregando carinho na forma de algo gostoso de comer, feito especialmente para você.

Bolinhos de chuva, bolo de chocolate, cookies, strudel, bolo de fubá, pudim ou pavê, macarronada, feijoada...Não importa a origem ou a receita, a grande magia da história é o amor com que a comida era feita, o tempo dedicado e, principalmente para as crianças, poder ajudar no processo, levar uns tapinhas no bumbum quando ficam no meio do caminho.

As conversas e histórias trocadas com calor humano, o barulho das panelas e as recomendações para não se aproximar do fogão. Acompanhar a vida na cozinha era um complemento fundamental na educação social e familiar. Era a base para o estreitamento dos laços entre seus integrantes. Cozinhar junto é aprender a ser mais família.

Infelizmente, a sociedade foi empurrada para o consumismo com a providencial ajuda da TV, que colocou todo mundo para fora de casa atrás de sonhos de carreira e de consumo. Toda a riqueza deste relacionamento que girava em torno do cozinhar e comer em família foi trocada por congelados, enlatados e comidas prontas.

Tudo pela “praticidade” que reduziu esses rituais de união familiar a um baú de lembranças deliciosas. Onde está o lucro nessa troca? Será que o som da voz do apresentador do jornal da noite é mais importante do que a voz das pessoas que a gente ama ao redor de uma mesa? Bem, a resposta fica com cada um.

Na atual sociedade ocidental, cozinhar em casa de maneira bem simplificada, tornou-se um ato contínuo de abrir embalagens e colocá-las no microondas. Pode ser encarado também como um hobby, o que é positivo, mas não é suficiente por não ser um hábito. Nem se percebe o que se come, imagine como se prepara.

“Perdeu-se o valor do cozinhar no desenvolvimento da criança, o que era algo corriqueiro e natural. Ficou um vácuo que videogame nenhum preenche”, comenta o psicoterapeuta, pedagogo e diretor da oficina 'Descondicionamento do Olhar', Cláudio Feijó.

O ato de cozinhar entre muitas outras coisas, proporciona à criança uma educação do seu querer, do controle de sua vontade do “aqui, agora”. Ela tem de controlar sua impaciência, aprender o “tempo das coisas”, desenvolver a noção de começo, meio e fim nas atividades e ao mesmo tempo fortalecer a si mesma ao perceber seu poder de realização.

A criança desenvolve o sentimento de se autossuprir e suprir ao outro no ato de cozinhar, o que oferece autoconfiança, satisfação e a generosidade da troca. Esse aprendizado fundamental para sua formação tem de ser oferecido por outras formas, nem sempre muito claras, as quais os pais procuram de todas as maneiras, muitas vezes sem resultado.

“Ao contrário do videogame onde tudo é na hora e tudo pode, ao cozinhar ela resgata a importância dos limites. Se colocar muito sal fica ruim. Se abrir o forno o bolo estraga. Ao cozinhar ela tangibiliza a importância dos limites e dos processos, um aprendizado essencial para toda a sua vida”, conta Feijó.

Cozinhar também é um campo aberto para o aprendizado e desenvolvimento de suas funções motoras e sentidos. Ao se fazer uma torta não se aprende só a cozinhar, mas sim Matemática, Física, Química, História, Criatividade, Idiomas, enquanto se põe a mão na massa. “Mas tudo isso tem de ser feito com muita troca e abertura para a participação efetiva da criança.

"O adulto não pode usar a atividade como um “palco” de sua superioridade”, alerta a psicanalista Kitty Haas. “É importante que os pais tenham uma visão sistêmica do cozinhar. A atividade estreita relacionamentos, promove o diálogo e estimula a autossuficiência e segurança. Mas todos se beneficiam, não só as crianças”, completa.

Os benefícios não param por aí. As atividades de amassar, dosar, cortar, limpar, desenvolvem suas habilidades manuais com rapidez, o que a prepara para atividades mais complexas no futuro como tocar um instrumento musical, por exemplo.

No campo da nutrição o benefício é imediato. Crianças que cozinham tendem a experimentar novos sabores mais facilmente e quebram preconceitos com relação a alguns alimentos tais como legumes e hortaliças. Da manipulação ao preparo, elas ganham segurança para experimentar, isso pode ampliar o valor nutritivo das refeições e intensificar a força da mastigação e, consequentemente, mais saúde.

Concretamente, os encontros de pais e filhos na cozinha são uma forma deliciosa de enriquecer a formacão das crianças. Um estímulo poderoso ao desenvolvimento de hábitos familiares e de alimentação mais saudável. Sem saudosismos, nada é mais moderno que criar cidadãos mais generosos, abertos e criativos.

Lugar de criança é na cozinha!

Dra. Priscila Rosa Pereira.

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