14 de dez de 2012

De modelo a obesa mórbida


A jornalista Janete Leão Ferraz foi modelo e manequim nos anos 80. Aos 38 anos, virou uma obesa mórbida. Testou todo tipo de dieta e, quando atingiu 135 kg, fez uma cirurgia bariátrica. Hoje, aos 53 anos e 76 kg, escreveu um livro em que relata o drama pessoal e os bastidores do que ela chama de "geração de mutilados". "De Top-Model a Ex-Obesa: uma relação íntima com a balança" será lançado no dia 6 de novembro em São Paulo.

Leia, abaixo, trechos do depoimento de Janete à reportagem.

"Comecei a sentir uma variação de peso a partir dos 35 anos. Era coisa pouca, mas me incomodava porque nunca tinha sido gorda. Fui uma criança magra, a ponto de me chamarem de "biscuit".

Aos 18 anos, trabalhava como modelo e manequim. Com 1,80 m e 50 kg, era o tipo mulherão, que chamava a atenção por onde passava.

Aos 24 anos, tive meu filho Pedro. Quinze dias depois, já estava pronta para entrar no mesmo biquíni de antes. Morava em Ilhabela, tinha uma vida supersaudável.

Voltei para São Paulo quando meu filho estava com um ano e meio. Conheci meu segundo marido, Mario Sergio [Cortella, filósofo e professor da PUC-SP], e um mês depois já estávamos casados.

PRIMEIRO SPA

Aos 35 anos, perdi minha melhor amiga em um acidente. Fiquei péssima. Naquele ano, fui para um spa pela primeira vez. Estava com 92 kg.

Comecei a fazer todas as dietas possíveis: da lua, da sopa, simpatias, macumba, inibidores de apetite, consultas com charlatães. Até chá de cocô de gato eu tomei.

Janete Leão Ferraz, que chegou a pesar 135 kg, fez cirurgia bariátrica e, em novembro, lança seu livro
Janete Leão Ferraz, que chegou a pesar 135 kg, fez cirurgia bariátrica e, em novembro, lança seu livro

Com 38 anos, tive de extirpar a tireoide por causa de um câncer. As coisas começaram a complicar. O hormônio sintético nacional não fazia efeito para mim, mas só descobrimos isso quase um ano depois, quando eu já estava imensa, perdendo cabelo e com uma forte depressão. O antidepressivo também aumentava o apetite.

Comia compulsivamente. Num Natal eu estava com 80, 90 kg. No outro, estava com 110, 120. Durante nove anos e meio, uma vaca entrou e saiu de dentro de mim. Foram 600 kg ganhos e perdidos.
Protagonizei cenas ridículas, como numa consulta em que o endocrinologista perguntou: "Você come à noite?". O meu marido disse "não" e eu respondi "sim". O Mario, incrédulo, perguntou: "Você come à noite?!".

Confessei que sim: eu comia à noite e durante a madrugada inteira. Pegava uma lata de leite condensado, um pacote de coco ralado, jogava tudo numa panela em fogo alto. Depois comia tudo, às pressas. Chegava a ingerir facilmente quatro quilos de chocolate num só dia.

Tem um momento da obesidade mórbida em que você perde o tato bucal. Não sabe se é quadrado, redondo, azedo, oleoso, seco. Põe tudo para dentro.

O spa foi um grande aliado. Entre idas e vindas, foram dois anos de internação. Ficava lá dez dias e os outros 20 fora. Essa vivência acabou me trazendo muitas amigas gordas. Éramos uma turma de gordas e hoje somos uma turma de bariatrizadas.

E a maioria delas sofre com as sequelas das cirurgias. Tenho uma amiga que solta gases sem querer, exala um cheiro horroroso. Outra arrota sem parar e outra vomita. É uma geração de mutilados.

Eu pesquisava muito, mas não me convencia que eu tinha de me mutilar para perder peso. Descobri que existe uma indústria da cirurgia bariátrica. Muita gente engorda para operar. Tem cirurgia que deixa a pessoa dependente do médico, do terapeuta, da nutricionista e da indústria farmacêutica.

Essas cirurgias são mal-absortivas, depois você precisa repor para sempre vitaminas, cálcio. Não estou culpando a ciência ou os médicos. As pesquisas levam a entender que essa é a melhor forma de tratar o cara, senão ele morre de diabetes, infarto ou AVC.

Em 2004, depois que meu filho foi morar fora, eu pirei e engordei 30 kg. Sentei diante da minha médica e disse: "Não aguento mais, vou fazer a cirurgia". Naquela época, tomava cinco tipos de medicações antidepressivas. Minha médica me deu, então, o telefone de um cirurgião que fora seu colega de faculdade.
Eu fui. Quando ele desenhou a técnica cirúrgica, falei: "Quero operar amanhã!".

Mas tive de esperar seis meses até provar que era obesa mórbida, consultar com o psiquiatra, fazer exames etc.

A cirurgia [que inclui redução do estômago e do intestino] aconteceu em 28 de outubro de 2004 e demorou umas quatro horas. Quando acordei, já no quarto, olhei o enfermeiro que estava trocando meu soro e recitei tudo o que ele tinha comido no almoço.

COMIDA PELOS POROS

Ele exalava o cheiro da comida pelos poros. Depois da cirurgia, os hormônios do estômago e do intestino voltaram a conversar com os do cérebro. Brinco que o efeito colateral da minha cirurgia é que agora só como coisa boa, natural, fresca.

Descobri o prazer de comer. Como tudo o que quero e nunca vomitei e ou tive diarreias. Faço ioga diariamente.

Há dois anos, fiz uma lipo, mas ainda não me submeti a nenhuma cirurgia plástica radical. Conquistei o corpo que entra numa calça Diesel 42. Aos 53 anos e 76 kg, sinto-me como Adélia Prado: "...tenho 18 anos...incompletos".

(Fonte: www1.folha.uol.com.br)