7 de fev de 2013

Implante hormonal: será que vale a pena?


Implantes hormonais usados para contracepção e supressão da menstruação sempre foram controversos. Agora, que têm sido procurados para fins estéticos, estão mais controversos ainda.

A modelo Talytha Pugliese diz que 'secou' depois de colocar o implante
A modelo Talytha Pugliese diz que 'secou' com o implante

Mais de um milhão dessas drogas foram aplicadas no Brasil em 2011, segundo o endocrinologista Elsimar Coutinho, 82, precursor da técnica. Ele calcula que a procura tenha dobrado em dez anos. O aumento esperado para 2012 era de 20%.

"Primeiro, você desincha. Depois, dá uma secada, perde celulite, ganha músculo, seu corpo fica duro e a textura da pele, mais firme", descreve a modelo Talytha Pugliesi. Ela atribui o milagre ao implante à base de progesterona colocado há três anos.

Pugliesi, 30, viu a medida do seu quadril cair de 91 para 88 centímetros. De quebra, o canudo enfiado sob sua pele a livrou da menstruação.

'CHIP' FASHION

Outra adepta é a modelo Thaís Rumpel, 17. Ela foi orientada pela agência a ir à clínica do célebre ginecologista Malcolm Montgomery, pupilo de Coutinho.

A "new face" chegou ao consultório com 62 quilos. Recebeu um tubo de elcometrina (à base de progesterona). Quatro meses depois, estava quatro quilos mais leve.

"Muitas meninas põem o 'chip' e emagrecem. A metade das modelos usa. Com os hormônios desorganizados, eu engordava muito", diz ela, cuja medida de quadril pulou de 98 para 93 centímetros.
A agência não só indicou o tratamento à garota como adiantou os R$ 3.500 do custo, que a modelo terá de quitar depois de juntar dinheiro.

A diretora da agência Elo, Renata Rodrigues, confirma ser comum o envio de profissionais para colocação de implantes: "Se a modelo se queixa de ganho de peso, a gente faz o procedimento, leva ao doutor Malcolm, faz todos os exames".

VOZ DE TRAVESTI

O tratamento pode causar efeitos colaterais como perda de cabelo, alteração na libido e mudança na voz.

"Meu irmão fala que tenho voz de travesti", diz Pugliesi. O implante que ela usa tem testosterona.

A atriz e modelo Letícia Birkheuer, 34, aderiu ao método aos 23 anos, para se livrar das cólicas, diz. Depois de oito anos, tirou o implante para ter filho e há cinco meses o recolocou. Ela engravidou quatro meses após a retirada. Ganhou 22 quilos na gestação. Seis meses após o parto, voltou à forma.

Birkheuer diz que o implante a ajuda a manter os seus 65 quilos. "Até pelo fato de não inchar. E reduz muito a celulite, impressionante."

O implante é um tubinho de silicone com três centímetros de comprimento por um milímetro de diâmetro. Dentro há um mix de hormônios feito sob medida, segundo médicos que o prescrevem. É aplicado com uma espécie de injeção e anestesia local.

Elcometrina é o nome de um dos mais usados. À base de progesterona, bloqueia a menstruação, reduz TPM, cólicas, enxaquecas e risco de endometriose, diz Montgomery. Dura uns seis meses.

Segundo ele, ainda "acaba com o sobe e desce hormonal" e anula o efeito do estrogênio em alta, que retém líquido. "A angústia da fome diminui, os pacientes acabam perdendo peso", diz ele.

Mas a elcometrina reduz a libido. Por isso, é comum que o ginecologista associe testosterona à fórmula.

Outro implante popular é a gestrinona, também à base de progesterona. É esse o tal que promete reduzir celulite e aumentar massa muscular.

Mas causa acne e pode abrir o apetite, ao menos nos meses iniciais, de adaptação.

Há ainda implantes à base de estrogênio e testosterona, manipulados para atingir o interesse do paciente.


FALTAM ESTUDOS

Especialistas questionam esse uso de implantes. O Conselho Regional de Medicina de SP alerta para efeitos colaterais e a sociedade dos endocrinologistas diz não haver bons estudos sobre a eficácia.

"Tenho 500 trabalhos científicos publicados em revistas médicas de peso", rebate Elsimar Coutinho. Seu estudo mais recente foi publicado em setembro de 2006 na revista "Contraception".

Coutinho diz que a busca desses implantes para melhorar a estética é "surpreendente". Ele frisa que a terapia é parte de um programa de anticoncepcionais de efeito prolongado. "A pessoa valoriza mais o efeito colateral do que o resto, isso é comum."

Montgomery diz que só aplica implantes em pacientes com indicações médicas como puberdade precoce, menstruação volumosa, enxaqueca, cólica, endometriose, mioma ou menopausa.

As doses de hormônio dos implantes são menores que as de pílulas anticoncepcionais, porque não passam pelo sistema digestivo, diz Coutinho. Um implante anual tem cerca de 300 miligramas.

O cálculo da dose é individualizado. São considerados índice de massa corporal do paciente, idade, hábitos etc.

A entidade dos endocrinologistas aceita como uma vantagem do implante o hormônio não ser processado pelo fígado. Mas aponta que há o risco de ser preciso tirar o implante com urgência.

"Uma paciente usava implante com dose alta de estrogênio. Teve câncer de mama e não tinha como reduzir rapidamente a liberação do hormônio", diz a médica Dolores Pardini, da entidade. Coutinho e Montgomery dizem que tiram o tubo no ato.

O governo não aprova a comercialização de implantes de gestrinona e elcometrina e alguns tipos de testosterona. A venda é vetada, mas o material para fabricá-los, não. Médicos que receitam os implantes usam os manipulados na farmácia do centro de pesquisa criado pelo próprio Coutinho.

O custo de um implante varia de R$ 700 a R$ 3.000.

O uso de implantes hormonais para fins estéticos não é recomendado pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo, informa a endocrinologista Ieda Therezinha Verreschi, membro da entidade.

"O conselho não apoia o uso de hormônio em implante para melhorar o aspecto físico. Esse tratamento só aumenta a musculatura, 'desfeminiliza' e cria pelo. Fica um 'monstrinho' a criatura. É quase que uma medicação para uma fantasia", diz.

A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia tem posição semelhante. "Não existem, até o momento, estudos com rigor científico que confiram credibilidade à prática", afirma Dolores Pardini, presidente eleita do departamento de endocrinologia feminina e andrologia.

De acordo com Ieda Verreschi, a progesterona não ajuda a emagrecer, pelo contrário. "É um hormônio anabolizante, aumenta a massa muscular com a incorporação de aminoácidos no organismo. Misturar testosterona e/ou estrogênio piora. A maioria que usa engorda."

Segundo a endocrinologista, a progesterona é também um anestésico central e pode ter efeito tranquilizante. "Mas é muito discreto e não é isso que vai melhorar a angústia, a TPM", acrescenta.

Ela conta um caso de uma paciente que usava implante de progesterona para parar de menstruar e teve alterações no ritmo de sono, "cochilava durante o dia e ficava acordada durante a noite". "Ela precisou parar de dirigir e teve um ganho de peso imenso. É uma reposta individual, não dá para generalizar os efeitos."

Sobre a promessa de acabar com a celulite, Verreschi afirma que não existe um tratamento hormonal com esse efeito. "A gordura revestindo o corpo feminino tende a fazer celulite. Não é botando progesterona ou testosterona que vai diminuir."

REGISTRO VENCIDO

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) não aprova a comercialização de gestrinona, elcometrina e alguns tipos de testosterona em implantes.

Segundo a assessoria de imprensa da agência, esses produtos tiveram registros, mas a documentação caducou há pelo menos dez anos.

A Covisa (Coordenação de Vigilância em Saúde) de São Paulo, após ser procurada pela reportagem, localizou estabelecimentos que comercializam o produto irregularmente. Até o fechamento desta edição, um deles, cujo nome não foi informado, foi autuado, mas poderá recorrer.

A modelo Raica Oliveira, 28, ex-namorada de Ronaldo, resolveu "dar um tempo" e tirar seu implante à base de progesterona, após oito anos. Mas já pensa em recolocar o tubinho. "Agora preciso malhar mais, está dando uma caída no bumbum e nas coxas. Se uso, fica tudo durinho."

Raica implantou hormônios aos 19, com o objetivo de melhorar a pele. "Tinha um pouco de espinha. Meu rosto ficou como o de um bebê."

A modelo Raica Oliveira desfila na Semana de Moda, no Rio de Janeiro
Raica Oliveira desfila na Semana de Moda, no Rio de Janeiro

Já a atriz Suzy Rêgo, 45, afirma ter procurado o tratamento para parar de menstruar. Usou implantes contraceptivos por 15 anos. Nesse período, deixou de ter sintomas de TPM. "Brincava que era um menino no corpo de menina. Sentia facilidade para ganhar massa muscular."

Em 2007, tirou o implante para engravidar. Fez um tratamento de estimulação ovariana e teve gêmeos.
Quando interrompeu o tratamento, viu seu corpo se transformar. No dia em que os gêmeos nasceram, em 2009, pesava 104 quilos. Chegou a usar manequim 48. "Não digo que a culpa é só dos hormônios. É ansiedade, conduta de vida." Hoje, manequim "43", ela não descarta a volta ao implante.

TESTOSTERONA

Os homens também aderiram ao "chip" da beleza.

O autor de novelas Carlos Lombardi, 54, usa o seu há quase um ano, para compensar a redução na produção de testosterona.

"Não deixei de ser o Clark Kent para virar o Superman, mas senti uma melhora de ânimo", diz ele.
Lombardi, que malha de segunda a sexta, acha que o hormônio é bom coadjuvante na perda de peso. Mas os efeitos, diz, não são rápidos nem devastadores.

"Meu cabelo continua se suicidando lentamente. Não é equivalente a uma plástica. Eu nem esperava por isso."


(Fonte: www1.folha.uol.com.br)