7 de mar de 2013

Lições de alimentação...por uma psicóloga


A Nina Horta que me perdoe, mas vou recomeçar o trabalho com o assunto dela: comida. Alguém já me disse que férias boas são aquelas em que a gente volta fisicamente um pouco mais cansada e gorda. Concordo porque foi assim que retornei.

Nada como relaxar, comer coisa boa, diferente e nos horários em que o organismo determina, não é verdade? Foi o que fiz, caro leitor. Cozinhei --meu lazer predileto--, li sobre comida, visitei restaurantes desconhecidos e preferidos e comi com gosto. Com muito gosto, aliás.

E, nesse período, também observei muitas famílias, com filhos pequenos e maiores, ao redor da mesa ou na cozinha de casa. E mais: assisti a um documentário que tomo como ponto de partida para nossa conversa de hoje. O filme chama-se "Muito Além do Peso" e está disponível no site www.muitoalemdopeso.com.br. Eu recomendo.


Devo confessar que, entre os diversos motivos que me fazem muitas vezes sentir pena dos mais jovens, um deles é a comida. E não me refiro às questões nutricionais, de saúde ou coisa semelhante, que são pertinentes e importantes.

No meu ponto de vista, comer é principalmente uma questão social e afetiva que leva ao prazer, e uma grande parcela dos mais novos não tem a chance de desfrutar desses aspectos da alimentação porque simplesmente não aprende como fazê-lo.

Eles gostam de muitas porcarias e o documentário comprova isso. Mas nem precisava, não é? Quem convive com crianças sabe que elas adoram doces industrializados, salgadinhos e refrigerantes. Não conhecem legumes, verduras e frutas e, por isso, recusam tais alimentos.

Muitos, inclusive o documentário citado, creditam a preferência deles à ação danosa da propaganda dirigida ao público infantil. Claro que a publicidade tem grande influência e não apenas junto às crianças, mas sobre todos nós. Mas eu considero o comportamento dos pais o principal motivo para determinar o estilo alimentar das crianças e adolescentes.

Afinal, quem é que apresenta essas porcarias gostosas para as crianças? Quem é que abastece a casa regularmente com alimentos industrializados? Quem é que cede aos caprichos das crianças que querem substituir uma refeição por salgadinhos? Quem é que não aguenta negar um pedido do filho?

Por outro lado, com o estilo de vida corrido de nossa época, quem é que se dedica a cozinhar para os filhos, mesmo que seja uma refeição rápida e simples? Devo dizer, caro leitor, que o cheiro da comida sendo preparada na cozinha é muito estimulante para as crianças.

Além disso, perceber que os pais (ou um deles) dedicam parte de seu tempo para fazer uma comida gostosa para o filho é, para a criança, um sinal de acolhimento e amor. E o sentido desse ato significa mais para ela do que ganhar uma porcaria gostosa quando os pais chegam do trabalho.


Ajudar a criança a refinar seus sentidos gustativo e olfativo e a desenvolver o prazer de comer com outras pessoas, inserindo-a nas tradições culinárias da família, é um modo de fazer com que ela sinta que pertence àquele grupo familiar.

E esse sentimento de pertencimento, que nos acompanha até o final da vida, é um alento perante as adversidades que enfrentamos.

Comer bem, com prazer e em boa companhia é uma questão de educação. Cozinhar para outra pessoa é uma demonstração de amor.


(Rosely Sayão, psicóloga e consultora em educação)

(Fonte: www1.folha.uol.com.br)