24 de nov de 2013

Vitamina D: a vitamina que não é vitamina e sim um hormônio!

Ela é fundamental tanto para a mulher grávida quanto para um atleta campeão olímpico. Sua escassez provoca imensos problemas de saúde, mas tê-la em excesso também. Serve ao bebé recém-nascido e ao idoso. É fundamental para o obeso e para o magro. Poucas substâncias servem tão completamente ao organismo quanto a vitamina D. A temporada dos corpos à mostra, com o verão e as férias, é o momento mais adequado para a compreensão do funcionamento da chamada vitamina do sol. Pode até chover hoje e amanhã, mas, dos 89 dias do verão brasileiro, 66 serão ensolarados no Rio de Janeiro; 65, em Porto Alegre; 60, no Recife; 46, em Brasília; e 45, em São Paulo. 

Até dez anos atrás, a vitamina D estava associada, sobretudo, à manutenção de um esqueleto forte. As descobertas mais recentes da medicina, no entanto, indicam que praticamente todos os tecidos e órgãos se beneficiam dela. “Direta ou indiretamente, a D está relacionada a pelo menos 2000 genes, o que comprova a sua vasta gama de benefícios”, disse a VEJA o endocrinologista americano Michael Holick, professor da Universidade de Boston, o grande pesquisador do assunto e autor do livro Vitamina D – Como um Tratamento Tão Simples Pode Reverter Doenças Tão Importantes

A vitamina D faz nosso coração bater no ritmo adequado e nossas artérias e veias pulsar em compasso. É ela que nos garante força muscular e nos protege contra infecções, infartos e derrames, diabetes e alguns tipos de câncer. A falta dela desregula o sistema de fome e saciedade e nos faz engordar – e morrer de vergonha de, na praia, vestir o biquíni e o calção.

Chamar a D de vitamina é um equívoco de origem histórica. Isolada em 1922, a substância foi denominada vitamina porque, acreditava-se, só poderia ser obtida por intermédio da alimentação, em especial do óleo de fígado de bacalhau. As vitaminas são compostos essenciais à saúde, mas não podem ser sintetizadas por nosso organismo. Ela foi batizada de D porque era a quarta substância do tipo a ser descoberta – depois das vitaminas A, B e C. A partir da década de 70, os pesquisadores, entre eles, Michael Holick, observaram que o corpo humano, ao contrário do que se supunha, poderia, sim, produzir vitamina D. Ou seja, a vitamina D não é uma vitamina, mas um hormônio. 

Existem basicamente três formas de estimular o organismo a fabricar vitamina D. Sem sombra de dúvida (com o perdão do trocadilho), o sol é a principal delas. Uma pessoa de pele moreno-clara, olhos e cabelos castanhos, como a atriz Débora Nascimento, precisaria de 10 a 15 minutos nas areias cariocas, entre 11 horas da manhã e 1 hora da tarde, 3 vezes por semana, sem protetor solar, para sintetizar a substância. Ao incidir sobre a camada mais superficial da pele, a epiderme, a radiação solar deflagra uma cascata de reações químicas que resulta na síntese da vitamina D, em sua forma ativa, pelos rins. Dessa forma, a meia-vida da substância no corpo humano é de 4 a 6 semanas – o dobro da duração da que pode ser obtida com a suplementação feita por intermédio da dieta ou de cápsulas. “Como a vitamina D é solúvel na gordura, ela é armazenada no tecido adiposo e liberada mesmo durante o inverno, permitindo níveis suficientes da vitamina durante o ano todo”, explica Michael Holick. 

O sol ideal para a substância é o mais abominado pelos dermatologistas – do meio-dia às 2 horas da tarde, sem proteção. Nesse período, predomina a incidência dos raios ultravioleta B (UVB), aqueles que, em excesso, nos deixam vermelhos como pimentão e são o principal fator de risco para o câncer de pele.

Dá-se, aí, um dilema monumental, um dos mais fascinantes da medicina atual. A partir da década de 80, começaram a surgir as primeiras associações entre os banhos de sol sem proteção e o aumento no risco de câncer de pele. Desde então, os dermatologistas preconizam que não se saia de casa sem besuntar o corpo (o rosto, principalmente) com filtro solar. O que fazer então diante das evidências de que, para a fabricação de uma substância tão crucial, como a vitamina D, é preciso, ainda que por pouco tempo, tomar sol sem protetor? Os médicos ainda não chegaram a um consenso, mas há pistas. “Não existem pesquisas sobre os perigos em longo prazo das curtas exposições ao sol para o câncer de pele”, diz Adilson Costa, chefe do serviço de dermatologia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. 

Muitos dermatologistas preferem não arriscar e recomendam a seus pacientes o uso de suplementos à base de vitamina D ou o prolongamento da exposição sem protetor nos períodos de sol mais fraco, como o início da manhã e o fim da tarde. Outros especialistas, no entanto, são menos conservadores. “Poucos minutos de sol intenso, seguidos de proteção solar adequada, não são suficientes para causar câncer de pele em longo prazo”, afirma Omar Lupi, vice-presidente do Colégio Ibero-Latino-Americano de Dermatologia. Todos são unânimes em afirmar que às pessoas vítimas do câncer de pele ou com histórico familiar do problema não é recomendada a exposição solar sem cuidados. Dos tipos de câncer de pele, o sol está associado ao mais comum deles, com 25% dos 518.000 casos da doença no país. Não se trata da versão mais letal dos tumores de pele, o melanoma. A radiação solar nada tem a ver com esse tipo de câncer. Ao que tudo indica, aliás, conforme os mais avançados estudos sobre o assunto, o sol pode até ser fator de proteção contra o melanoma.

O protetor solar dos sonhos seria aquele capaz de nos proteger do sol e, ao mesmo tempo, permitir a produção de vitamina D pelo organismo. Mas isso, por enquanto, parece impossível para os especialistas. Afinal, o mesmo raio UVB que causa câncer é o que deflagra a síntese da vitamina – e como separar uma ação da outra? Os estudos mais avançados em termos de proteção solar investigam a fabricação de produtos compostos de nanopartículas, os filtros inteligentes. Ao penetrarem as camadas mais profundas da pele, eles teriam ação prolongada e dispensariam a necessidade de reaplicar o protetor a cada duas horas e sempre depois do mar ou da piscina.

Apesar da fartura de sol no Brasil, a escassez de vitamina D na população é preocupante. “Cerca de 50% dos brasileiros com menos de 50 anos apresentam deficiência de vitamina D”, diz Marise Lazaretti, chefe do Grupo de Doenças Osteometabólicas da Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo. Entre os idosos, o contingente chega a 80%. Esse é, em grande parte, o resultado de anos de medo da exposição solar. 

Há de se levar em conta ainda que a vida urbana nos afasta do convívio com o sol. Vivemos trancados nos escritórios. presos no trânsito. As crianças ficam muito tempo diante da televisão e do computador. Nessas condições, em casos de deficiência, é necessário recorrer à suplementação com cápsulas de vitamina D. Não é possível garantir essas doses extras por meio da dieta. São poucas as fontes ricas em vitamina D, capazes de assegurar uma alimentação diária equilibrada. Para alcançar níveis suficientes, por exemplo, seriam necessárias três latas de sardinha, duas postas generosas de salmão ou de 50 a 100 gemas de ovo todos os dias. 

Há dois tipos de vitamina D: o ergocalciferol (ou vitamina D2), de origem vegetal, e o colecalciferol (ou vitamina D3), encontrado nos animais e produzido também pelos seres humanos. Os suplementos podem ser feitos a partir de qualquer uma dessas fontes e são igualmente eficazes. No Canadá, onde, em algumas regiões, o inverno chega a durar sete meses, por determinação do governo a indústria alimentícia produz leites e margarinas enriquecidos com vitamina D. Produtos desse tipo são comuns também nos EUA e na Europa. No Brasil, aparecem timidamente nas gôndolas.

Os médicos começaram a se preocupar com a falta de vitamina D no início da Revolução Industrial, em meados do século XVIII. À medida que as famílias trocavam o trabalho no campo pelas fábricas, afastavam-se da energia solar e começaram a ter problemas de saúde. Datam desse período os primeiros relatos médicos de raquitismo, problema ósseo decorrente da deficiência da vitamina, comum em crianças. A doença não só retardava o crescimento como deixava suas vítimas mais suscetíveis a infecções, como a tuberculose. O raquitismo atingiu proporções epidêmicas na Europa e em alguns estados americanos mais ao norte. De cada 100 crianças que moravam em regiões industrializadas, oitenta sofriam da doença. No início do século XX, o banho de sol era prescrito pelos pediatras tal qual remédio. Quase dois séculos depois, a medicina volta a eleger a vitamina D como um dos mais potentes aliados da boa saúde.

Uma das frentes mais interessantes de pesquisas é aquela que investiga o papel da substância na prevenção a vários tipos de câncer – mama, intestino, próstata e ovário, entre outros. A vitamina D funciona como uma espécie de sentinela da multiplicação celular. No caso de proliferação exagerada das células, ela induziria à apoptose – mecanismo de defesa no qual células potencialmente malignas “cometem suicídio”. Graças a esse poder da vitamina D, especialistas sugerem que os banhos de sol controlados poderiam prevenir, só nos Estados Unidos, 185.000 novos casos de câncer todos os anos.


CUIDADOS PRECOCES

Durante as férias, o tempo que a garotada fica sob o sol costuma aumentar. Na praia, na piscina ou no clube, os pequenos não podem ficar expostos sem proteção. “As crianças possuem uma pele mais fina que a dos adultos, e seu sistema produtor de melanina não está completamente amadurecido”, diz o dermatologista Adilson Costa, da PUC de Campinas.

Pigmento natural da pele, a melanina funciona como uma espécie de filtro solar. Por causa dos componentes químicos dos protetores, as crianças só podem usar esse tipo de produto a partir dos 2 anos. Antes dessa idade, a proteção ideal se faz com guarda-sol, roupa e chapéu.

O sol mais seguro é o de antes das 10 horas e depois das 16 horas. E como fica a vitamina D em meio a tanta proteção? 

Quase 10% das crianças e dos jovens de até 21 anos nos EUA possuem deficiência da substância. Um estudo recente mostrou que as crianças com doenças graves são, em sua maioria, as que têm os maiores déficits de vitamina D. “É correto o pediatra solicitar que a criança seja submetida a exames de dosagem de vitamina D no sangue”, diz Kerstín Taniguchi Abagge, presidente do departamento científico de dermatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria. Em caso de escassez, é preciso recorrer à suplementação.

8 PERGUNTAS ESSENCIAIS

1. É possível obter as quantidades mínimas necessárias de vitamina D somente pela alimentação?
Não. A variedade de alimentos ricos em vitamina D é muito pequena, e fica impossível manter uma alimentação equilibrada (e portanto saudável) a partir de uma dieta baseada em salmão, gema de ovo ou shiitake. “O brasileiro consome cerca de um décimo da vitamina D recomendada”, diz a endocrinologista Marise Lazaretti. Além disso, o modo de preparo dos alimentos interfere na quantidade de vitamina D neles contida. Quando frito, o salmão perde até 50% do micronutriente se comparado a quando ele é assado, cozido ou grelhado.

2. Há pelo menos vinte anos os médicos advertem que tomar sol sem proteção constitui fator de risco para o câncer de pele. Agora, defendem a ideia de que, para obtermos a vitamina D necessária para o bom funcionamento do organismo, devemos abrir mão do protetor. O que fazer, afinal?
O argumento de que o organismo só produz vitamina D mediante a exposição solar sem proteção não deve ser interpretado como um “liberou geral”. Estatelar-se sob o sol, sem nenhum cuidado, é proibidíssimo. Recomenda-se que, no verão brasileiro, a duração dos banhos de sol para a obtenção de vitamina D varie de um a 45 minutos, conforme o tipo de pele, a latitude e o horário. Alguns dermatologistas argumentam que, apesar de não existirem estudos sobre o assunto, os banhos de sol desprotegidos, ainda que rápidos, podem, sim, deflagrar o câncer de pele. Todos são unânimes, no entanto, ao condenar categoricamente a prática por pessoas com histórico de câncer de pele na família ou que já tenham sido vítima da doença.

3. Qual é o melhor sol para a síntese de vitamina D?
É aquele que os dermatologistas mais temem – o sol de verão, do meio-dia às 2 da tarde, sem proteção. Durante a manhã e no fim da tarde, o percurso dos raios solares através da atmosfera é oblíquo, e, portanto, a intensidade da radiação é menor. Além disso, os raios são mais fortes na linha do Equador, dada a perpendicularidade do Sol em relação à Terra. Dependendo do fator de proteção do filtro solar, os protetores disponíveis hoje no mercado podem reduzir em até 99% a fabricação de vitamina D.

4. Por que o tempo de exposição ao sol varia também conforme o tipo de pele?
Quanto mais escura for a pele, mais difícil será a produção de vitamina D pelo organismo. Essa dificuldade se explica pela presença em maiores quantidades de melanina, o pigmento natural da pele, que funciona como uma espécie de filtro contra a radiação solar. Os negros, por exemplo, precisam ficar dez vezes mais tempo expostos ao sol sem proteção para que produzam o mesmo volume de vitamina D que as pessoas de pele clara.

5. É preciso expor todo o corpo ao sol para a produção adequada de vitamina D?
Não. Basta expor os braços e as pernas ao sol, três vezes por semana. Isso corresponde a deixar aproximadamente 25% da área total do corpo sob a radiação solar. Quando se está de biquíni ou calção, a porção do corpo descoberta chega a 75%, o que diminui consideravelmente a necessidade de exposição ao sol sem proteção. A radiação diretamente sobre o rosto sem filtro está terminantemente proibida. Do ponto de vista da fabricação de vitamina D, não faz diferença, já que o rosto não chega a 10% da área total do corpo.

6. O sol que tomamos enquanto estamos no trânsito é suficiente para a síntese de vitamina D?
Os raios ultravioleta do tipo B (UVB), aqueles capazes de ativar a síntese de vitamina D, não conseguem atravessar o vidro. Nos dias nublados, há uma redução de até 50% na fabricação de vitamina D. A poluição é também outro obstáculo. Um estudo feito na índia revelou que, nas cidades com ar mais poluído, as pessoas produzem 54% a menos de vitamina D do que em cidades limpas.

7. Os idosos produzem vitamina D na mesma intensidade que os mais jovens?
Não. Com o avançar da idade, o organismo funciona em um ritmo mais lento. A quantidade de vitamina D produzida por uma pessoa de 70 anos é, em média, um quarto da que é sintetizada por um jovem de 20 anos. “Por isso, a indicação de suplementação aumenta conforme a idade”, diz Sérgio Schalka, dermatologista da Universidade de São Paulo (USP).

8. É possível substituir o sol pela suplementação de vitamina D?
Sim. A suplementação é muito comum em regiões do Hemisfério Norte onde o sol é escasso. Nesses locais, durante o inverno,a síntese de vitamina D pode ser completamente interrompida.



FONTE: REVISTA VEJA

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