2 de jul de 2014

E a ração do seu pet, vale a pena trocar por comida caseira?




Carnes, de preferência com ossos e cruas, vísceras e alguns legumes para simular a vida selvagem fazem parte da dieta que cada vez mais pessoas oferecem a cães e gatos. A tendência cresce junto com o movimento "antirração". Segundo os adeptos da comida natural, a ração é transgênica, tem muitos conservantes e é gatilho para alergias, infecções e câncer.



O movimento por aqui é capitaneado por sites que divulgam obras de estrangeiros, adeptos da chamada veterinária integrativa, como os americanos Karen Becker e Marty Goldenstein –este último, autor de "The Nature of Animal Healing" ("A natureza da cura animal").

A maioria das dietas é carnívora, crua e pode contar com suplementação de cálcio, se feita sem ossos. Há a opção cozida para os pets com a dentição comprometida. As porções são medidas com rigor na balança digital, para controle do peso. No Brasil, o principal divulgador desse tipo de alimentação é o site Cachorro Verde, da veterinária Sylvia Angélico. A página recebe 200 mil visitas mensais. Conseguir uma consulta com Sylvia pode levar um mês.

A veterinária diz colecionar histórias de sucesso. Sua cadela dachshund, Maya, 9, é um exemplo. Adotada pela especialista aos três, sofria com otites que cessaram após a alimentação natural.

É comum entre os entusiastas da alimentação uma preocupação com a própria saúde que é transferida ao pet. A jornalista Vanessa Musskopf, 30, é autora do blog Santa Dieta, de alimentação saudável para humanos, e passou a pesquisar sobre a alimentação natural para bichos após vários episódios de inflamação de pele em seus cães. "Levava ao veterinário e nada resolvia. Só a dieta ajudou", conta ela.

Depois da experiência, ela passou a divulgar também receitas para cachorros, como o cookie de farinha integral, maçã e ovo, que distribui aos pets dos vizinhos, como o dachshund Plínio, 4.

A publicitária Mônica Duó, 28, e seu marido Guilherme Ribeiro, 27, editor de vídeo, também seguem uma alimentação saudável –evitam transgênicos e consomem orgânicos sempre que possível. E a vira-lata deles, Melanie, 2, acabou entrando na dieta. Os dois acreditam que a alimentação pode ajudar a tratar o transtorno de ansiedade dela. "Vai tomar um tempo, mas vamos nos revezar aqui", diz Mônica.

A ausência de cristais na urina também é associada à alimentação natural por alguns. "No começo, eu achei a alimentação natural absurda", diz Kátia Possi, 35, adestradora. "Uma cadela minha já teve uma pedra na bexiga, mas depois da dieta não vimos mais nenhum cristal nos exames de urina."

Associações e especialistas ligados à universidades são céticos quanto à alimentação natural –e só a apoiam no caso de dietas terapêuticas, quando o animal doente precisa de adaptações não existentes no mercado. "Essas alimentações podem ficar facilmente desequilibradas", diz Marcio Antonio Brunetto, professor de nutrologia da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP. Segundo ele, pode faltar vitamina A, cloro, cálcio e zinco.

Para Aulus Cavalieri Caciofi, especialista em doenças nutricionais de cães e gatos da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinária da Unesp, a cura de alergias pode ser uma coincidência. "Compostos alergênicos estão em qualquer dieta", diz.

O Conselho Federal de Medicina Veterinária se diz contra a alimentação caseira. "Alimentos balanceados e de formulação fixa são os mais adequados para os animais domésticos", adverte em nota.

A Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação compartilha da mesma opinião e afirma que as principais empresas do segmento adotam um guia de boas práticas, com padrões internacionais de nutrição e qualidade das matérias-primas.

A veterinária Sylvia Angélico, do site Cachorro Verde, diz que sempre enfrentou resistência à alimentação natural, mas segue firme. "A alimentação natural bem-feita é mais saudável", conta. "Mas entre uma dieta caseira malfeita e a ração, fique com a ração", aconselha.

Especialistas dizem, porém, que são necessários estudos que comparem as duas dietas."Cabe à ciência se debruçar sobre essa questão", diz Marco Antônio Ciampi, presidente da Associação Humanitária de Proteção e Bem-Estar Animal. "A ração é uma adaptação à vida urbana."

(Fonte: www1.folha.uol.com.br)

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